Com o objetivo de chegar a palcos mais exigentes e continuar a evoluir ...
ESTÁ A CONCLUIR O CURSO UEFA A DA REAL FEDERACIÓN GALLEGA DE FÚTBOL
Quando a paixão pelo treino é genuína, o esforço logístico transforma-se apenas em mais um estímulo para dar o melhor todos os dias”, refere o treinador.
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Depois da passagem por clubes como o Benfica, Casa Pia, Atlético, Damaiense, A-dos-Francos e Porto Alto, Ricardo Clemente rumou ao norte do país e radicou-se no Minho onde assumiu o coordenação técnica do Rendufe e posteriormente à Galiza onde se encontra a concluir o curso UEFA A ministrado pela Real Federación Gallega de Fútbol.
José Pina: Comecemos pelas tuas raízes e pela base que te sustenta. Nasceste em Cortiçadas e viveste vinte e dois anos em Samora Correia. De que forma é que essa herança moldou a tua postura e a resiliência com que encaras o futebol?
Ricardo Clemente: As minhas origens em Cortiçadas e os anos vividos em Samora Correia deram-me uma formação de caráter inegociável. Aprendi cedo que nada se alcança sem esforço genuíno, respeito pelo trabalho e frontalidade. No futebol, como na vida, a base familiar e cultural define quem somos. Trago essa matriz comigo para cada relvado, sabendo que a humildade no esforço diário é a única forma de construir algo duradouro.
José Pina: O teu percurso tem sido construído degrau a degrau, desde escalões competitivos e a coordenação técnica no Rendufe até à decisão corajosa de cruzar a fronteira para a Galiza. Como avalias esta caminhada?
Ricardo Clemente: Tem sido um caminho de aprendizagem constante, feito de suor, estudo e muita entrega. Cada clube e cada função por onde passei foram fundamentais para testar ideias e afinar a minha visão metodológica. Sinto um profundo respeito por todos os contextos onde trabalhei, porque foi essa bagagem acumulada que me deu a estalagem necessária para procurar palcos mais exigentes e continuar a evoluir.
José Pina: Hoje encontras-te em Espanha, a concluir o curso UEFA A pela Real Federación Gallega de Fútbol e integrado no ED Val Miñor Nigrán como treinador estagiário na División de Honor Juvenil, o patamar máximo do escalão sub-19 no país. Como se vive esta realidade e o que significa trabalhar lado a lado com a visão de um treinador principal?
Ricardo Clemente: É um privilégio diário estar inserido num contexto de elite tão exigente. A minha postura é de inteira dedicação e lealdade: cumpro, absorvo e potencio com rigor o que o treinador principal idealiza para a equipa. Estar na División de Honor e concluir o UEFA A na Galiza permite-me aliar a ambição pessoal ao rigor coletivo, aprendendo com os melhores e preparando-me com serenidade para os desafios futuros.
José Pina: Com residência no concelho de Vila Verde, a tua rotina diária implica cruzar a fronteira para a Galiza. Como é gerir este ritmo de vida exigente?
Ricardo Clemente: A distância e as horas na estrada fazem parte do sacrifício de quem quer crescer naquilo que ama. A base no concelho de Vila Verde oferece a tranquilidade familiar necessária, e a travessia diária para Espanha reforça o foco profissional. Quando a paixão pelo treino é genuína, o esforço logístico transforma-se apenas em mais um estímulo para dar o melhor todos os dias.
José Pina: Chegamos ao coração da tua identidade técnica, o RC Method. O que distingue esta metodologia e porque optas por afastar fórmulas fechadas?
Ricardo Clemente: O RC Method nasce da convicção de que o futebol real não cabe em cartílias rígidas ou receitas pré-concebidas. A metodologia assenta na matriz cognitiva, perceptual e comportamental do jogador. Partimos de princípios fundamentais de ação e não de comportamentos mecanizados. O objetivo é dotar o atleta de ferramentas para que ele compreenda o jogo e encontre soluções de forma autónoma.
José Pina: Defendes que a inteligência cognitiva do jogador se treina expondo-o à incerteza e que o erro no treino não deve ser punido. De que forma aplicas isto no relvado?
Ricardo Clemente: No treino, criamos contextos de alta variabilidade e oposição real, simulando a imprevisibilidade do jogo. Se o jogador não tiver a liberdade de arriscar e errar durante a semana na tentativa de resolver um problema complexo, nunca será um tomador de decisão de elite. O erro não é um pecado desportivo, mas sim a principal matéria-prima para a aprendizagem e para o desenvolvimento da resiliência mental.
José Pina: Sentes que a tentação atual de padronizar os comportamentos táticos em idade de formação está a limitar o talento individual?
Ricardo Clemente: A padronização excessiva corre o risco de transformar jogadores criativos em meros executores de ordens. O nosso papel como treinadores e professores não é polir o talento até o apagar, mas sim dar estrutura para que a criatividade floresça com critério. O RC Method devolve o jogo ao jogador, permitindo que a clarividência individual se manifeste ao serviço da coletividade.
José Pina: Olhando para o horizonte, onde vês o RC Method e o teu futuro profissional a curto e médio prazo no futebol sénior e de alto rendimento?
Ricardo Clemente: O foco imediato está em continuar a absorver conhecimento de excelência e a servir com competência o clube onde me encontro. O horizonte natural aponta para a liderança de equipas no futebol sénior de alto rendimento, em Portugal ou em Espanha, com uma proposta de jogo corajosa, inteligente e dominante. O caminho faz-se com trabalho diário e a certeza de que a oportunidade encontrará um profissional preparado.
José Pina: Para fechar esta conversa com precisão: o futebol moderno exige resultados imediatos, mas o teu discurso respira planeamento a longo prazo. Qual é a marca definitiva que pretendes deixar neste desporto?
Ricardo Clemente: Mais do que os troféus que possamos conquistar, a verdadeira vitória de um treinador mede-se pelas mentes que ajuda a formar e pela identidade que imprime nas suas equipas. Quero ser lembrado como alguém que respeitou profundamente o jogo, que elevou o potencial humano de cada atleta e que provou que a competência e o rigor são os únicos atalhos legítimos para o sucesso. O trabalho fala por si, e a relva continuará a ser o único juiz de quem trabalha com paixão e verdade.
