VOLEIBOL»» Mudanças na Pedro Eanes Lobato

Nuno Maria está de saída após 15 anos de permanência…

“É ALTURA DE DEIXAR DE FORMA ABERTA AS PORTAS PARA QUE OUTROS ASSUMAM A SUA LINHA DE TRABALHO”


Depois de vários anos na PEL, Nuno Maria está de saída. Será razão para perguntar, porquê?
As razões são várias, mas o passado mês de Dezembro, foi claramente o momento que marcou esta decisão. Primeiro um problema de saúde, agudizado pelo stress contínuo do clube, e depois a decisão do presidente do clube, naquele momento, em não continuar na próxima época. Decisão tomada e informada numa reunião com colaboradores e decisiva para mim. Pois desde o primeiro momento que me juntei a este projecto sempre disse que aquando da saída do presidente que eu também sairia. Este foi um projecto montado e desenvolvido com base escolar, dirigido por professores e com filosofias diferenciadas do actual associativismo, por isso muito ímpar e diferenciador, penso que o sucesso das conquistas teve estes princípios por base. Depois é fácil de perceber, que não poderia continuar com esta linha sozinho. Saliento que não sou profissional de desporto, sou profissional de Educação Física e o esforço e tempo dados a este projecto praticamente me tiraram o tempo para ter vida própria, foram muitos anos a assumir muita coisa e só neste ano foram 80 jogos em 36 fins-de-semana, viagens e mais viagens, comecei a época com 4 equipas e foi até rebentar. Relembro que tinha a coordenação técnica e as Seniores no escalão máximo do voleibol nacional. O apoio foi sempre residual e é humanamente impossível de manter e aguentar, pelo menos para mim, sabemos o enquadramento deste tipo de clubes. Todos os anos me competiram tarefas paralelas, tanto logísticas, como de treinadores, atletas, patrocinadores e muito mais, tudo somado dá como resultado uma saturação, um desgaste incomportável, ultrapassável só com muita carolice e abdicando de muita coisa. Depois o estado do voleibol actual e os valores, é difícil entender muita coisa, as verbas que estão inerentes à competição, as coimas, etc, e depois a parte ética. Até se atingir um certo patamar, existem sempre muitos amigos, depois é o salve-se quem puder e isso é a morte dos projectos, porque o rácio atletas de qualidade/ clubes na primeira divisão/ condições estruturais é muito baixo e depois obviamente surgem as ultrapassagens pela direita e isso não pode ser para este projecto, o contexto e a filosofia que este projecto tinham não se coaduna com alguns aspectos desta realidade federada, para ultrapassar isso tivemos de nos focar naquilo que nos move, nas atletas e no proporcionar de uma prática devidamente orientada e de excelência.


Depois a grande dificuldade em transmitir valores desportivos, algumas vezes por inexistência de educação desportiva, depois pelo contexto da sociedade, onde o compromisso, a responsabilidade e muitos mais valores não são enquadrados num modelo desportivo, mas isso é um problema de todos e de difícil resolução, que se tem alastrado e que é de difícil controlo. O saber estar, o saber fazer e perceber que só é possível com trabalho, exigência e que é preciso respeitar estados de desenvolvimento, são de difícil explicação e muitas vezes incompreendidos, logo problemáticos. É muito difícil planear a médio/ longo pois os factores externos e os quais não controlamos são imensos e estar constantemente a lutar contra eles é inglório e muito ingrato. Começar, recomeçar e voltar a fazer pode ser muito interessante, mas desgastante e quando não é devidamente alimentado, reconhecido e apoiado é inevitável e todos sabemos o resultado final, é o que está à mostra.
Também nos últimos tempos senti claramente que a minha linha de pensamento para o clube era uma linha cada vez mais diferenciadora e como sempre coloquei os interesses do clube á frente dos meus, é altura de deixar de forma aberta as portas para que outros assumam a sua linha de trabalho, sem que tenha qualquer interferência.
Depois o factor decisivo a minha família, tem sido ela a grande sacrificada e muitas vezes preterida em prol dos outros, é então o momento para ela que mais do que ninguém merece.
Como neste momento nunca poderia assumir tudo o que é do clube, como nunca foi isso que desejei e como as atuais alternativas têm pontos de vista antagonistas dos meus é a altura de sair. 

“Saio de consciência tranquila”

- Provavelmente não terá sido fácil tomar esta decisão?
Têm sido meses muito difíceis, dolorosos para mim, são 15 anos onde dei tudo, onde construi muito, permiti a muitas atletas crescerem, lutarem e alcançarem sonhos. Foi para elas que sempre me dediquei, para lhes poder proporcionar o que nunca tive, na minha margem, e dando-lhes todo o meu trabalho e saber. Mas para irmos à luta temos de ter condições mínimas, porque senão o prazeroso torna-se doloroso e para isso temos de trabalhar todos muito, o problema esteve no todos.


Mas saio de consciência tranquila, não só pelo percurso realizado até aqui, mas pelo trabalho preparado para o que se segue, está devidamente enquadrado e estou mais que seguro que os próximos 5 anos estão garantidos em termos de qualidade, foram muitos anos investidos no projecto, agora há que continuar e melhorar o que está feito. Quando cheguei existia uma equipa, não haviam bolas oficiais, treinavam num relvado sintético ao ar livre e basicamente não havia nada, hoje quem pegar tem tudo e tem tudo com um carimbo de qualidade, desde material até à qualidade das atletas. Mas também por isso tem muita responsabilidade em manter e melhorar, se é possível, claro que sim, mas só com muita dedicação, entrega, competência e humildade, quando se vem para aqui o todo e os outros são mais importantes do que o eu, engane-se quem ache que vai agradar a todos e que o clube serve de projector de individualidades e egos, esse é o caminho errado.

“Fazer muito, com pouco…”

- Para trás fica o sucesso de um trabalho notável a nível da formação e um feito que mais ninguém conseguiu a sul do Tejo, ter uma equipa sénior na 1.ª Divisão Nacional. Sente orgulho naquilo que fez?
Sinto muito orgulho, mas tudo só foi possível com trabalho sério e de equipa, com atletas que se dispuseram a ajudar e que são referências nacionais, acreditaram no que se estava a fazer e vieram com espírito de missão e responsabilidade pelo desenvolvimento do voleibol, mas estou certo que ninguém ainda percebeu o que se fez aqui, da dificuldade daquilo que se alcançou e do que permitiu a tantos atletas e clubes crescerem connosco. Ajudamos a reduzir a décalage entre voleibol da margem sul e da margem norte, do norte do país e do sul do país e deixamos uma marca.
Mostramos que é possível fazer muito com pouco, sendo honestos, cumpridores e competentes. Apostamos tudo na formação, na desportiva e na académica, sabíamos que só era possível fazer muito bem, fazendo de forma excelente na base, investimos num modelo de jogo, investimos nas muitas horas de trabalho e investimos na quantidade e qualidade, sobretudo apostando em treinadores de excelência. Foi fundamental aferir, avaliar com rigor e tentar sempre melhorar.
O mais difícil não foi atingir patamares de excelência (também foi), mas sim manter os mesmos, pois outros clubes com muito melhores condições e escolas de formação de excelência noutras modalidades não atingiram, tornou-se hábito irmos a fases finais e enviarmos atletas para as selecções nacionais.
O trabalho foi construído de forma horizontal (dentro de cada nível) e de forma vertical (entre níveis diferenciados), trabalhar por níveis de desenvolvimento, em vez de escalões, trabalhar com modelos onde o padrão e a orientação final é o grupo sénior, realizar isto e nunca esquecer a especificidade de cada grupo, de cada pessoa, é muito trabalho realizado com muito profissionalismo e só ao alcance de quem se predispõe a trabalhar muito e bem.  


“Continuarei ligado ao desporto escolar da minha escola”

- Um técnico com as suas credenciais, certamente não vai ficar parado. Está disponível para abraçar um novo projecto?
Hoje estou disponível para ir para casa, descansar, reflectir e estar junto dos meus, é o que farei a partir de dia 3 de Junho. O resto não é prioridade. É verdade que já me tentaram contactar, mas não falei com ninguém, primeiro porque tenho ainda as iniciadas em competição e depois porque não é a minha prioridade.

- Há algo mais que queira acrescentar?
Dizer que aquilo que mais desejo é que todas continuem a jogar voleibol, de preferência na PEL, que sejam felizes e que se gostam realmente de voleibol que o respeitem, dando o seu melhor e querendo sempre ser o melhor, persistindo e ultrapassando obstáculos, definindo objectivos e sonhando, porque tudo é possível. Eu estarei sempre cá disponível para todas as atletas e para quem precisar de mim.
Quero obviamente agradecer a todos os que partilharam este percurso comigo, não quero mencionar nomes para não me esquecer de ninguém, sobretudo as atletas, mas também os treinadores e patrocinadores que confiaram no trabalho e sem eles não teria sido possível.
Agradecer à Junta de Freguesia de Amora e à Câmara Municipal do Seixal, pelo apoio constante e por apoiarem o Voleibol.
Por fim agradecer aos meus amigos e familiares por me terem apoiado sempre e terem permitindo este longo caminho, sabendo da importância do mesmo para mim, em prol dos outros.
É um até já ao voleibol federado da PEL, mas continuarei ligado ao desporto escolar da minha escola que é a Pedro Eanes Lobato, trabalharei com o meu grupo disciplinar e com a Direcção da minha escola de forma a continuarmos a formar atletas de voleibol e encaminharmos os mesmos para o federado, como tão bem têm feito nos últimos anos.

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