AMORA – Ricardo Pereira deixou o clube - JORNAL DE DESPORTO

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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

AMORA – Ricardo Pereira deixou o clube

Guarda-redes explica razões da sua saída




Ricardo Pereira, guarda-redes titular do Amora em todos os jogos do campeonato nacional da 3.ª divisão, deixou de fazer parte do plantel e já não vai integrar a equipa que no próximo domingo vai defrontar o Real, em Massamá, em jogo a contar para a 7.ª jornada. A decisão “irreversível” foi tomada e comunicada a quem de direito, disse Ricardo Pereira na sua página do facebook.

 Com o intuito de esclarecer a opinião pública e apurar as verdadeiras razões da sua saída do clube, o JORNAL DE DESPORTO colocou algumas questões ao jogador que manifestou vontade de continuar a praticar a modalidade que tanto gosta porque o futebol faz parte da sua vida.

 “O meu contrato tinha a duração
 da permanência do João Amaral

Por que razão abandonou o Amora nesta altura do campeonato?
A razão que me fez chegar ao Amora tem a ver com o Mister João Amaral e restante equipa técnica (Vítor Bento e Fernando Ferreira). Assinei um contrato com o presidente do clube e disse-lhe frontalmente que o contrato tinha a duração da permanência do João Amaral. Aos 38 anos, posso dar-me ao luxo de jogar por paixão e escolher com quem vou trabalhar. Só me recebe, nestas condições quem quer. Quando o João tomou a decisão de sair, por razões que conheço muito bem, mas que não me competem tornar públicas, senti que estava na hora de me despedir e agradecer a oportunidade de ter jogado num clube com tamanha história. Todavia, deparei-me com um dilema de consciência que se prendia com o facto de deixar um clube da III Divisão ir para a guerra sem guarda-redes e com um jogo a 2 ou 3 dias de se realizar. Tal cenário, foi-se repetindo mais duas ou três semanas e eu fui acedendo aos pedidos para fazer mais um e outro jogo. Após 2 empates com equipas que lutam para subir de divisão, e ao voltarmos a jogar no nosso estádio, senti a minha impotência para ajudar uma equipa que quer mas não pode, que luta contra o relvado, que luta contra a energia negativa que aquele estádio tem, por motivos que são alheios ao grupo de trabalho, que luta contra forças interiores e exteriores. Perante tamanha impotência senti que o mais coerente e digno era dar oportunidade de jogar a quem acredite mais que eu, a quem tenha a motivação suficiente para dar a volta a uma situação, que tem raízes muito mais profundas que a bola que bate na rede.

 “A linguagem cuidada, moralista, e filosófica só tem credibilidade
 se for acompanhada de acções e gestos coerentes” 

Sai magoado com alguém? 
Não. Saio triste, por sentir que o João Amaral, que é um dos treinadores mais competentes que conheci, e um dos homens mais honestos com quem trabalhei, podia ter sido uma lufada de ar fresco neste clube mas acabou por ser engolido por uma megalomania doentia que tem arrastado o clube para a lama, ano após ano. Saio frustrado por este Amora não ter tido na sua baliza um Ricardo Pereira feliz, motivado e com a garra que o levou a ser capitão de equipa em Paio Pires onde fez mais de 50 jogos em 2 anos. Agora, magoado não. Só nos consegue magoar realmente quem nos ilude, quem intelectualmente tem capacidade de nos ludibriar ou nos cria expectativas elevadas e isso jamais aconteceu comigo. A linguagem cuidada, moralista, e filosófica só tem credibilidade se for acompanhada de acções e gestos coerentes, caso contrário é somente um discurso esquizofrénico e vazio. Para o bem e para o mal, além de jogar e treinar, sou Psicólogo Clínico e identifico com alguma facilidade sintomas de mentira compulsiva ou fuga à realidade.

 “Não sei perder e só eu sei o que me custou
 cada derrota que sofri ao serviço deste clube


Como é que analisa a sua passagem pelo Amora? 
Foi uma passagem curta da qual desportivamente não guardo recordações felizes. Pese embora os três empates possam ser considerados resultados positivos, a mim não me dizem muito, porque fui educado a ganhar. Não sei perder e só eu sei o que me custou cada derrota que sofri ao serviço deste clube. Não senti, neste curto período, que me pudesse entregar de corpo e alma a todos os que me rodeavam porque sabia que em cada derrota, havia que encontrar bodes expiatórios, e, eu, como mais velho e experiente, era um dos alvos a abater. Agora lutei ao lado de muita gente boa, que está no balneário deste clube e de quem gosto muito. Agrade ou não o que vou dizer, eu tinha acabado de sair de um clube onde em dois anos nunca se assobiou um jogador da casa, onde se aplaudia nas derrotas porque se sabia bem a dignidade com que se defendia aquela camisola e onde todos estavam a remar para o mesmo lado. O treinador era para treinar, os jogadores para jogar e o presidente para gerir o clube. Não nego que nem sempre foi isto que senti na Amora.

 “As luvas, estão lavadas e a secar 
para voltarem a ser usadas dentro de umas semanas” 

Está a pensar deixar o futebol como jogador ou ainda é cedo para arrumar as botas?
As botas já arrumei há muito tempo porque nunca fui um predestinado a jogar com os pés… Agora, as luvas, estão lavadas e a secar para voltarem a ser usadas dentro de umas semanas. Neste momento, quero estar em casa uns dias e brincar e jantar com aqueles que tanto são prejudicados pela minha paixão: a minha esposa e as minhas filhas. Mas, quem me conhece bem sabe quanto amo o futebol e a raça que consigo emprestar às equipas que defendo. Por isso, sei que não é o momento de acabar. O futebol é a minha vida e eu sou um sortudo. Como treinador de guarda-redes (no SL Benfica) na formação de jovens dou-lhes a minha experiência, o meu equilíbrio, a formação técnica e táctica e ajudo-os a crescer na posição mais bonita que existe. Aquela em que só jogam os miúdos que têm um grande carácter e um grande ego. A jogar, posso empregar o que ensino, posso experimentar na pele o que exijo aos meus guarda-redes e ainda posso ser muito feliz a partilhar o que sei com os mais novos, assim, como, rir e gritar após cada vitória e desesperar-me após cada derrota. Poucas actividades permitem fazer tudo isto de forma tão intensa. Quem sente o futebol desta forma não pode nem deve deixar de jogar. Agora, não interessa onde, nem em que divisão. Interessa, isso sim, com quem e com que objectivos. E eu, só jogo com um objectivo. Ganhar.

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